"Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas" - I. Kant
Immanuel
Kant (1724-1804), nasceu em Konigsberg, região da Prússia Oriental, na
Alemanha, cidade na qual viveu toda a sua vida até os seus últimos dias,
educando-se e, mais tarde, trabalhando como professor na Universidade de
Konigsberg. Filho de artesãos cristãos pietistas, recebeu de seus pais,
principalmente de sua mãe Regina Reuter, excelente educação, herdando dela as
boas virtudes cristãs, o amor pela natureza e o apreço pelo conhecimento.
Iniciou os seus estudos no Collegium Fridericianum, onde a grande severidade
nos conteúdos e métodos ensinados influenciariam o rigor e a disciplina do
jovem Kant nos estudos. No Collegium, aprendeu bem o latim e mal o grego,
impossibilitando sua leitura dos clássicos gregos e repercutindo em seu sistema
filosófico.
Ao
ingressar na Universidade de Konigsberg (1740-1747), possuía grande interesse
nas aulas de lógica e metafísica, aprendendo a doutrina newtoniana e a
metafísica leibniziano-wolffiana, formando-se em filosofia e ciência. A partir
disso, Kant começa a perceber, sustentado pelas teorias de Newton, que a
ciência do século XVIII já alcançara grande maturidade e riqueza, necessitando
desligar-se da abstração metafísica. Contudo, o intuito de Kant também era de
repensar a metafísica para que a mesma tivesse o rigor que a física da época
alcançara. É na busca de conciliar a metafísica com o rigor científico da
física, também indagado pelos fundamentos do conhecimento que nascera a sua
mais importante obra, Crítica da Razão Pura.
Em
1755, Kant escreve a dissertação “Nova elucidação dos princípios primeiros do
conhecimento metafísico”, fazendo uma revisão dos princípios da metafísica
leibniziano-wolffiana, com o desejo de melhor fundamentar a metafísica
apreendida na universidade. Para Kant, a metafísica ainda é de suma necessidade
para explicar os fundamentos últimos da realidade. Contudo, foi em de 1762 que
surge uma revolução no pensamento kantiano, a partir da leitura dos escritos do
filosofo inglês David Hume, no qual faz críticas radicais sobre a metafísica. O
próprio Kant afirma que essa leitura o fez despertar do “sono dogmático”. Isso
faz com que o filósofo de Konigsberg se utilize da ciência física para explicar
os fundamentos das coisas, onde o mesmo afirma que a filosofia deveria
utilizar-se de princípios geométricos das ciências novas.
Até 1768, Kant escreverá várias obras, fazendo duras críticas a metafísica tradicional, mas foi apenas em 1769 que Kant recebera uma “grande luz”, possibilitando uma nova formulação epistemológica, separando o racionalismo do empirismo, tanto do dogmatismo como do ceticismo. Esse período ficou conhecido, como o próprio Kant afirma, “Revolução Copernicana”, no qual a revolução heliocêntrica feita por Copérnico expirou em Kant uma mudança de perspectiva na forma de estruturação do conhecimento. Antes a metafísica admitia que o nosso conhecimento deveria regular-se pelos objetos, mas com a “Revolução”, Kant afirma que são os objetos que devem regular-se pelo nosso conhecimento. Além disso, em 1770, com a dissertação “Da forma e dos princípios do mundo sensível e do mundo inteligível”, o filosofo de Konigsberg estabelece a diferença entre conhecimento sensível e conhecimento intelectivo. 1770 e 1781 constitui o momento decisivo da formação do sistema kantiano, pois através de sua profunda reflexão nascerá em 1781 a sua mais importante obra “Crítica da razão pura”.
Contexto em que a obra foi escrita
A
modernidade é marcada pela consolidação da epistemologia enquanto disciplina
própria da filosofia, feito este atribuído principalmente a Immanuel Kant, que
além de colocar a discursão no centro da filosofia, propôs-se em uma nova
formulação do conhecimento humano. Não obstante, é também nesse período que as
teorias newtonianas em torno da ciência ganham grande importância para a
filosofia ao ponto de buscarem fundamentar as teorias filosóficas utilizando-se
do método científico, com o propósito de construir um conhecimento sólido,
universal e necessário. A ciência de Newton possuirá grande influência no
sistema filosófico de Kant, de tal forma que o mesmo denomina a sua
epistemologia de ciência das coisas ultimas.
Até
meados do século XVIII, a especulação filosófica era regida a partir de duas
escolas filosóficas, o racionalismo metafísico e dogmático, que
determinava a razão como princípio do conhecimento, mas se condicionava apenas
em seus próprios axiomas, e o empirismo ceticista de David Hume, que
colocava a experiência como fundamento do saber humano, contudo, desacreditava
das possibilidade do homem conhecer algo. Estas teorias serviram como estímulos
para Kant na elaboração de uma nova epistemologia.
Nesse
contexto, Kant escreve em 1781 a sua mais importante obra, Crítica da Razão
Pura, no qual ele tratará de uma forma mais eficaz para obtermos um
conhecimento sólidos, universal e necessário. Ele tratará na obra, além da
epistemologia, questões como metafísica, psicologia, lógica, física, matemática
e cosmologia.
Crítica da Razão Pura
Kant
propôs, em meio ao racionalismo e empirismo, um terceiro caminho para construir
o conhecimento, a partir de uma melhor explanação na relação sujeito-objeto,
denominado de criticismo. Kant considerou serem as três principais
possibilidades da filosofia: dogmatismo, ceticismo e crítica. Esta última seria
a grande saída da humanidade, para que o homem dotado de razão pudesse, a
partir de sua faculdade intelectual, construir o seu conhecimento seguro,
utilizando-se de princípios tanto racionalistas, sob o qual o conhecimento é
possível e de que a verdade existe, como empiristas, duvidando do conhecimento
determinado e pondo à prova toda afirmação da razão humana não aceitando nada
inconscientemente. A atitude de Kant não é nem cético nem dogmático, mas
criticamente inquisidor – um meio termo entre a temeridade dogmática e o
desespero cético. Destarte, responderá várias questões e problemas filosóficos,
entre eles, Kant construirá uma cosmologia a partir da sua epistemologia
física, no qual ele denominará de “geografia física”, pois conhecemos a
realidade mediante ao espaço, que é um categoria estruturante do mundo.
O filosofo de Konigsberg, ao longo de sua Crítica,
colocará à prova os dois principais sistemas epistemológicos da época, não
apenas para provar as suas limitações, mas para uni-los a partir de um
princípio que mostre as suas qualidades na construção do conhecimento e na
estruturação do mesmo na cognição humana. Contudo, surge um problema que nem
racionalismo, nem o empirismo responderam como se dá a estruturação do saber na
cognição do homem?. Isso ajudará a compreender também como podemos conhecer a
natureza, e como esta apresenta-nos a realidade, a tal modo que podemos dizer
que conhecemos algo.
O
intuito de Kant é consolidar o conhecimento científico europeu do século XVIII,
como única via para obtermos um conhecimento verdadeiro e responder a
inquirição anterior, pois com Newton, a ciência tomou proporções de grande
importância para responder sobre as principais problemática no mundo e sobre o
mundo. Em sua obra Crítica da Razão Pura, o filosofo de Konigsberg busca
compreender a natureza do conhecimento científico e o que dá fundamentação ao
mesmo. Kant define esta natureza como uma síntese a priori do
conhecimento a partir dos juízos humanos, pois entre esses princípios e juízos
compreendemos a natureza, o mundo e todo o universo. Contudo, também busca
descobrir qual é o fundamento que possibilita essa síntese, pois através
desta é possível descobrir como são possíveis os conhecimentos matemáticos,
geométricos, físicos e cosmológicos além de que poderia resolver a questão da
consolidação da metafísica como ciência, ao ponto de compreender os seus
principais objetos de estudo, como Deus, o mundo e a alma. As suas tentativas
foram falhas, mas não ao ponto de Kant abandonar a metafísica, e sim redefinir
seu âmbito e proposito de estudo. Além disso, o que conduziu Kant à ideia
crítica não foi a rejeição das conclusões metafísicas, e sim, a consciência da
incerteza dessas conclusões, e da fraqueza dos argumentos.
As
primeiras elucidações de Kant se propõem em delinear os elementos e formas que
estruturam o conhecimento, mediante a relação entre sujeito e objeto, homem e
natureza, onde o sujeito recebe os dados do objeto e é transformado pelo mesmo.
Kant chamará essa nova estruturação de filosofia transcendental, no qual
designa a ciência filosófica fundamental. Para diferencia-la da filosofia
transcendental medieval. Todavia, depois
da “Revolução Copernicana” de Kant, não mais o conhecimento regula-se pelos
objetos, mas sim os objetos devem regular-se pelo nosso conhecimento através de
nossa faculdade intuitiva. Kant destaca que “quaisquer que sejam o modo ou os
meios pelos quais um conhecimento se relaciona aos objetos, aquele pelo qual se
relaciona imediatamente a eles é a intuição. A intuição nos fornece o
conhecimento imediato dos objetos, e esta só é fornecida pela nossa sensibilidade,
ou seja, a intuição se limita mediante a nossa capacidade de receber os dados e
sermos transformados pelo objeto, sendo assim podemos conhecer a natureza. Essa
afirmação da intuição diverge-se da compreensão dos predecessores de Kant, como
Descartes e Espinoza, que separavam a intuição em um tipo de conhecimento
diferente dos demais.
Além
disso, o processo da intuição produzirá um novo conceito na razão humana
ao ponto que a faculdade de julgar do homem estruture-a de acordo com a forma
própria do intelecto humano, ou seja, que acordo com o modo de funcionamento da
mente. Na filosofia kantiana, a faculdade de julgar constitui a base da
racionalidade humana e esta só pode ser conhecida através de sua atividade de
formular juízos, sendo assim, os juízos são os elementos essenciais para a
formulação teórico e prático da razão do homem. Os juízos, por sua vez, são as
operações do intelecto onde os conceitos são unidos, gerando novos conceitos,
podendo ser analíticos ou sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles
em que a conexão do predicado com o sujeito é pensada por meio da identidade,
ou seja, aqueles que o predicado já está contido no sujeito, formulando-se de
forma a priori, pelo puro raciocínio, apenas explicitando o sujeito; os juízos
sintéticos são aqueles que a conexão é pensada sem identidade, ou seja, o
predicado acrescenta algo novo ao sujeito, que não é extraído por análise, de
forma a posteriori, pela experiência, sendo particular ou empírica.
Os juízos analíticos, por serem a priori, são universais e necessários e
os juízos sintéticos, sendo a posteriori, extraem conceito apenas por
generalização.
Neste
sentido, a ciência deveria valer-se da analítica, para formulação de conceitos
universais e necessários, e da sintética, compreendendo os elementos sensíveis
da realidade. Para Kant, a ciência deve enveredar-se por um terceiro juízo, que
una a “aprioridade” e a “sinteticidade” da faculdade humana, definindo-o de juízo
sintético a priori, no qual a intuição humana auxilie na formulação de
conceitos articulados de forma a priori a partir de uma nova fundamentação.
Cada juízo possui um fundamento diferente na sua formulação: os juízos
analíticos a priori se fundamentam a partir dos conceitos lógicos da identidade
e da não-contradição; os juízos sintéticos a posteriori se
fundamentam a partir da própria experiência humana. Contudo, os juízos
sintéticos a priori não se baseiam no princípio da identidade e da
não-contradição, pois não unem predicados já explícitos no sujeito, nem se
baseiam na experiência, pois são a priori, ou seja, são universais e
necessários. Por isso, a base de todo criticismo é compreender como são
possíveis esses juízos sintéticos a priori.
Compreensão
da obra
Immanuel
Kant foi um dos grandes revolucionários da modernidade e um dos pilares da
contemporaneidade, construindo um sólido sistema filosófico e mostrando-se
também exemplo de acadêmico. Além disso, a sua reflexão em torno da epistemologia,
física, metafísica, ética e cosmologia mostram-se ainda de grande importância e
aplicabilidade para o mundo de hoje, visto que suas teorias possibilitam
compreender a discursão da época e lança-nos para um pós kantismo que usufrui,
de seu precursor, elementos indispensáveis para o homem de ciência de hoje. De
fato, o arcabouço epistemológico de Kant possui tamanha completude e
importância, jamais vista antes, que na atualidade há quem diga que possa-se
fazer uma filosofia a favor ou contra o filósofo de Konigsberg, mas nunca sem
Kant.
Contudo, a grande questão é perceber a grande
importância do pensamento kantiano para a sua época, no qual as grandes escolas
filosóficas entre o século XVI e XVIII, “ditavam” o que o homem poderia
conhecer. A séculos os pensadores buscavam encontrar o fundamento das coisas e
da natureza, e muitas eram as elucidações sobre como o homem consegue e formula
seu conhecimento, mesmo os clássicos pré socráticos, refletindo sobre o
princípio primeiro das coisas do mundo, a busca era a mesma, um fundamento que
os explicasse as inquirições desse princípio, ou seja, como podemos conhecer a
natureza.
A
grande “luz” de Kant foi perceber que tanto o racionalismo francês como
empirismo inglês dispunham de fundamentos plausíveis e de suma importância para
o conhecimento, propondo-se a criar uma nova teoria que utilizasse da analítica
do racionalismo e da sintática do empirismo para fundamentar a epistemológica
em geral. Essa junção de juízos analíticos e sintáticos denominou-se juízo
sintético a priori. Todavia, por sua vasta complexidade, a Crítica da Razão
Pura, tornou-se de difícil compreensão, tendo Kant de escrever mais tarde outra
obra para tentar facilitar a compreensão de sua teoria.
A intenção de Kant não era proporcionar um itinerário filosófico difícil, mas um caminho perene e humilde para o homem de ciência, no qual este poderia percorre-lo utilizando-se de sua razão para chegar a um conhecimento sólido e que o ajudaria na sua conduta acadêmica.
REFERÊNCIAS
HELFERICH, Christoph. História da Filosofia. Tradução por Luiz
Sérgio Repa. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução por
Fernando Costa Mattos. 4. ed. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2016.
PASCAL, Georges. O Pensamento de Kant. Tradução por
Raimundo Vier. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Do
Humanismo a Kant. 8ª ed. v. 2. São Paulo: Paulus, 2007.


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