INTRODUÇÃO

Nascido em Montpellier, na França, no ano de 1798, Isidore Auguste Marie François Xavier Comte foi um filósofo francês que ficou conhecido por ter sido o primeiro a sintetizar a necessidade de uma ciência da sociedade (Sociologia) e por ter fundamentado, pela primeira vez, a teoria positivista. Comte passou a dedicar-se à formulação de sua doutrina positivista e, em 1822, publicou o Plano de trabalhos necessários para a reorganização da sociedade. O filósofo começou a redigir o seu Curso de Filosofia Positiva em 1830 e terminou o último dos seis volumes apenas no ano de 1842. Nos primeiros escritos, Comte já planejava um esboço da Sociologia, a qual nomeou de “Física Social”, em referência à semelhante organização por leis entre as ciências da natureza e a ciência da sociedade. O termo “sociologia” surgiu somente nos volumes do Curso de Filosofia Positiva.

 

O POSITIVISMO, A CIÊNCIA E A RELIGIÃO DE COMTE

Auguste Comte (1798-1857) é o iniciador do positivismo francês, o pai oficial da sociologia e, em certos aspectos, o expoente mais representativo da orientação positivista do pensamento. "Nem bem completara catorze anos, já experimentava a necessidade fundamental de regeneração universal, ao mesmo tempo política e filosófica, sob o impulso ativo da crise revolucionária salutar cuja fase principal precedera meu nascimento. Em 1822, Comte descobre de forma clara a sua filosofia, embasado sob a constante inspiração da minha grande lei relativa ao conjunto da evolução humana, individual e coletiva, reflexão esta denominada de lei dos três estágios.

A partir disto, Comte desenvolve o seu itinerário filosófico a partir da sua “grande lei”, denominada lei dos três estágios, segundo a qual a humanidade, e o seu psiquismo, passa através de estágios: o teológico, o metafísico e o positiva. No estágio teológico, os fenômenos são vistos como "produtos da ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos"; no estágio metafisico, são explicados em função de essências, idéias ou forças abstratas, mas é somente no "estágio positivo que o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter conhecimentos absolutos, renuncia a perguntar-se qual é a sua origem, qual o destino do universo e quais as causas íntimas dos fenômenos para procurar somente descobrir, com o uso bem combinado do raciocínio e da observação, as suas leis efetivas, isto é, as suas relações invariáveis de sucessão e semelhança".

A filosofia positiva, portanto, deve submeter a sociedade rigorosa pesquisa científica, já que somente uma sociologia científica pode ser considerada como a única base sólida para a reorganização social, que deve encerrar o estado de crise em que se encontram há longo tempo as nações mais civilizadas. Não se podem resolver crises sociais e políticas sem o devido conhecimento dos fatos sociais e políticos. E é por essa razão que Comte vê como tarefa extremamente urgente a do desenvolvimento da física social, vale dizer, da sociologia científica. A lei é necessária para prever e a previsão é necessária para a ação do homem sobre a natureza. Comte pensa que a ciência é que deve fornecer ao homem o domínio sobre a natureza.  

O conhecimento é feito de leis provadas com base nos fatos. Desse modo, é preciso encontra as leis da sociedade se quisermos resolver suas crises: "Abandonando-se também na filosofia política a razão das idealidades metafisicas, em benefício das realidades observadas, por meio de subordinação sistemática, direta e contínua da imaginação à observação, necessariamente as concepções políticas deixam de ser absolutas para serem relativas ao estado da civilização humana, de modo que as teorias, podendo seguir o curso natural dos fatos, permitem prevê-los É na previsibilidade racional do desenvolvimento futuro da convivência social que se pode resumir o espírito fundamental da política positiva". Portanto, para a sociologia, através do raciocínio e da Observação, é possível estabelecer as leis dos fenômenos sociais, como a física pode estabelecer as leis que guiam os fenômenos físicos. Comte divide a sociologia ou física social em estática social e dinâmica social. A estática social estuda as condições de existência comuns a todas as sociedades em todos os tempos.

A última grande obra de Comte, o Sistema de política positiva (1851-1854), a intenção comtiana de regenerar a sociedade com base no conhecimento das leis sociais assume a forma de religião, na qual o amor a Deus é substituído pelo amor à Humanidade. A Humanidade é o ser que transcende os indivíduos. Ela é composta por todos os indivíduos vivos, pelos mortos e pelos ainda não nascidos. No seu interior, os indivíduos se substituem come as células de organismo. Os indivíduos são o produto da Humanidade, que deve ser venerada como o eram outrora os deuses pagãos. Os dogmas da nova são a filosofia positiva e as leis científicas. Os ritos, os sacramentos, o calendário e o sacerdócio são necessários para a difusão de novos dogmas. Haverá um batismo secular, uma crisma secular e uma extrema-unção secular.

As críticas ao pensamento de Comte não se fizeram esperar. Entretanto, elas não impediram ampla difusão do pensamento comtiano. Deve-se ainda dizer que seus maiores difusores, como Littré, eliminaram desde o início tudo o que dizia respeito à religião positiva. Ademais, nem todo o pensamento de Comte, mas somente algumas de suas partes, teve influência duradoura sobre o pensamento posterior. A idéia da importância da ciência para o progresso da humanidade, a crítica ao pensamento  metafísico não provado, a idéia da sociologia como ciência autônoma não redutível a outras ciência, a insistência na importância da tradição, o reconhecimento da historicidade dos fatos humanos e da própria ciência, a tomada de posição em relação à unicidade do método científico e do valor cognoscitivo (e não somente prático) da ciência — esses são alguns temas que demonstraram a sua influência durável e positiva na história do pensamento.

  

REFERÊNCIAS

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Do Romantismo até nossos dias. 8. ed. v. 3. São Paulo: Paulos, 2007.

 

HELFERICH, Christoph. História da Filosofia. Tradução por Luiz Sérgio Repa. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

BUNNIN, Nicholas et al (Org). Compêndio de Filosofia. Tradução por Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2992.