INTRODUÇÃO
A
Filosofia da História, desenvolve-se a partir da própria progressão da
filosofia ao longo das eras, pois mais que apenas fatos e acontecimentos que
surgem aos séculos, os filósofos buscam compreender a estrutura da história, a
forma de construção e o seu sentido. Além disso, compreender o sentido da
história é entender como e porquê os acontecimentos e fatos desencadearam uma
evolução constante para o homem, não apenas física, mas intelectual, pois o
sistema filosófico de hoje é fruto de elementos anteriores a estes. Nesse sentido,
a filosofia da história procurar entender como esses acontecimentos
contribuíram para a história, como estes se fizeram história e como a história
influenciou os mesmos. É necessário, entretanto, que se faça a diferenciação da
Filosofia da História das demais ciência que possuem a história como
objeto de estudo, pois este possui sua reflexão própria e sua teorização
particular as demais ciências. De fato, o intuito da filosofia está na própria
reflexão das ações humanas e da compreensão da realidade, diferente da ciência,
que busca suas verdades a partir da verificação, quantificação e possibilidade
dos acontecimentos, a partir de seu método próprio. Mesmo trabalhando a mesma
coisa, a filosofia e a ciência possui objetos de estudos que podem se diferenciar,
uma vez que a primeira busca a compreensão do sentido e da estrutura da própria
história, a segunda almeja compreender a história de forma factual, ou seja,
pelos elementos acontecidos na história e que se fizeram história.
CONSTITUIÇÃO DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA
Desde
o início das civilizações, o homem busca compreender a realidade em volta, como
forma dominar a natureza e pode-la utiliza ao seu favor. Foi na filosofia, que
a reflexão em torno da realidade se tornou viável e possibilitou que a humanidade
buscasse nela a conformidade para grande parte das suas inquirições. Contudo,
surge uma nova incógnita, como os acontecimentos e fatos da humanidade se
realizaram e se podem ser previstos ou entendidos? A história da filosofia nasce
como uma forma de construir uma narrativa universal dos fatos humanos e
possibilitar explicar como os acontecimentos passados influenciam e contribuem
para a história das civilizações. Para além disso, surge também a dúvida para
saber se a história possui um sentido para a humanidade, se ela existe como
forma de beneficio para a progressão humana ou apenas constitui um conjunto de
fatos que acontecem ao acaso, não sendo determinados ou providenciais.
Destarte, para as demais formas de saberes e crenças, todos concordam que a
história aparece com a criação ou o surgimento do mundo.
Um
exemplo claro disso é a compreensão do surgimento do mundo dada pelas demais
religiões. Para os povos mesopotâmicos, a criação é advinda da procriação dos
deuses Abzu e Teamat, que formam o universo o possibilitam o homem construir
sua história; já entre os judeus e cristão, a criação do mundo é fruto de Deus,
que cria a natureza e o homem a sua imagem e semelhança, e providencia
para que toda a história do homem seja um grande caminho de redenção e salvação
das almas; para a ciência, a criação da realidade advém da junção de elementos
e matérias frutos do Big Bang, e o homem surge da evolução de uma
ancestral comum de outros seres vivos, como o macaco. Percebe-se, portanto, que
as várias formas de compreensão da história são narrativas para explicar como e
porque surge a realidade. Esses fatos contribuem para a realidade de forma
geral, mas surge outra questão, “só existe uma história, no singular, ou existe
outras história, no plural?”
Remo Bondei, na sua obra A
história tem um sentido? afirma que existe história no plural e história
no singular, no qual a primeira refere-se a narração da série da fatos e
acontecimentos em paralelas épocas e em âmbitos geográficos delimitados, ou
seja, a história própria de povos e nações, com seus elementos típicos da sua
cultura; o segundo representa o entendimento da história como um todo global,
que se destaca das vicissitudes locais, dos indivíduos, famílias e povos, e que
possuem repercussão de forma mais abrange, sem os limites de uma cultura
particular. Isso ajuda-nos a compreender que a história possui fases, que são
divisórias entre os períodos da civilização, marcadas pela evolução
intelectual, cultural, política e religiosa de cada época. Comumente, a
história é dividida entre os períodos clássico, medieval, moderno e contemporâneo,
sendo este último o período histórico em que vivenciamos hoje, mas para filosofia
da história, na busca de compreender a estrutura e o sentido da história
possuem outra divisória, no qual Bondei chamará de modelos.
Os
modelos são as formas de entendermos como cada época compreendiam a
própria história, e seu sentido restrito. Para Bondei, os modelos são
referentes aos filósofos de cada época, sendo seus principais precursores Políbio,
Agostinho e Fiore. Para Políbio, a história universal é
possível graças ao rápido advento do único domínio político conhecido, sob o
governo de Roma, ou seja, os acontecimentos e personagens são ordenados pela
natureza política do Estado. Para Agostinho, bispo de Hipona, a história
entende-se como uma peregrinação, uma viagem da humanidade rumo a Deus,
no qual existe uma Providência divina que conduz-nos e fundamenta o
nosso agir cristão. Com Fiore, a história compreende-se também como uma
compreensão religiosa, fundamentada nas três pessoas da Santíssima Trindade, com
a superação do Antigo Testamento, onde os homens se regenerarão para a
liberdade plena, no amor e na alegria.
Já
na modernidade e contemporaneidade, a História da Filosofia,
possui sua maior expressão, tendo sido o filosofo francês do século XVIII
Voltaire o primeiro a utilizar-se deste termo para expressar a reflexão em
torno do sentido e do telos do conjunto de fatos que agregados e
comprovados chamamos de história. Contudo, mesmo o termo História da
Filosofia tendo surgido na modernidade, a discursão, de forma direta ou
indireta, já fora tratada por filósofos tanto clássicos, quanto medievais. No
medievo, por exemplo, a história ligava-se a providência divina, no qual
Deus, autor e princípios de toda a realidade, delineava o percurso da história
mantendo-se sempre em constante ligação com a sua criação. Na modernidade,
período de grande secularização e laicização, há-se uma nova interpretação da História,
a partir do itinerário dos indivíduos e da sua expressão vivencial, gerando uma
vasta produção. Na contemporaneidade, a busca pelo sentido histórico
relaciona-se a busca doo espírito humano a liberdade, que quer
expressar-se como um conhecimento ora fruto da própria racionalidade humana,
desprovida dos interesses alheios, ora pela busca do sentido, que se perdera pelo
radicalismo de vários que não aceitaram a mesma ter um sentido ou um
determinação.
AS CIÊNCIAS HISTÓRICAS
A
historiografia foi uma das primeiras disciplinas na compreensão da
história que existiu, surgindo em Atena, durante seu período clássico. Os pais
da historiografia ocidental foram Heródoto e Tucídides, no qual afirmavam que
os acontecimentos históricos são justamente aqueles de que somos testemunhas
oculares ou que são relatados por quem os viu pessoalmente. Contudo, Tucidides ao
referir-se a fatos históricos que são distantes no tempo, compreende ele como
uma visão arqueológica. Nesse sentido, a história em si, preocupa-se originalmente
em registrar os fatos, para que a sua lembrança não se suprima e não sejam
esquecidas. Com o passar do tempo, a historiografia passa da mera compreensão
dos fatos históricos para tornar-se uma forma de decifração de nós mesmos, como
instrumento para dar significado à nossa vida, ou seja, passa do objetivismo
dos fatos observáveis para um subjetivismo no sentido da nossa história.
Além
disso, com a própria revolução científica, a discursão toma novos rumos,
desenvolvendo-se uma nova área do saber histórico que chamará de historicismo.
O historicismo desenvolveu-se na Alemanha ao longo do século XIX, com
a intenção de substituir as filosofias da história com esquemas prefixados por
um justo sentido histórico. Ela é fundamentada na análise e na narração
metódica de fatos e ações humanas, como forma de estrutura-los e desvendar sua
veracidade e causas. De fato, o intuito dessa nova disciplina científica é
delimitar nos fatos e ações humanas, para evidenciar como os mesmos
contribuíram para a história e compreender as circunstâncias que o fizeram ser
realizados a partir das suas categorias de compreensão.
Destarte, a história não possui mais um
sentido no historicismo, pois são os homens que atribuem-lhe esse
caráter, portanto, a sua preocupação deve ser meramente científica, e como toda
ciência, o historicismo possui seu objeto e método de estudo, com o
intuito de produzir uma base teórica rigorosa, quantificável e observável. O
seu objeto são os fatos próprios da ação humana, mas não qualquer ação, e sim
aquelas que acarretaram uma revolução na sociedade, como, por exemplo, as
descobertas heliocêntricas de Copérnico, ou o nazismo de Hitler. O método do historicismo
é observação e experiência não só dos fatos em si, mas também dos artefatos e
documentos que comprovam a veracidade dos fatos passados. Portanto, a história, de
acordo com o historicismo, deveria, ao contrário das ciências naturais,
pautar-se pela categoria da compreensão, e não da explicação científica.
Por isso, no historicismo, compreender a história significa interpretar e criar
ao mesmo tempo, mesclando elementos objetivos e subjetivos da história.


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